
O Human Immunodeficiency Vírus ou HIV
Thiago Moraes - Farmacêutico - Departamento de Suporte Técnico-Científico / Farmoterápica
O Human Immunodeficiency Vírus ou HIV é o nome dado ao vírus pertencente à classe dos retrovírus e o causador da AIDS, que em português significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
Os primeiros relatos de casos de AIDS foram feitos em 1977/78 nos EUA, Haiti e África Central.
De acordo com o relatório anual do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, existem no mundo aproximadamente 33 milhões de pessoas infectadas. A África Subsaariana é a área mais afetada, com aproximadamente dois terços do total mundial, ou seja, cerca de 22,5 milhões de pessoas infectadas. Esta região também concentra 76% dos casos de morte pela doença.
No Brasil, estima-se que haja 620 mil pessoas infectadas pelo HIV, com uma média anual de 32 mil novos casos e 11 mil mortes em decorrência da doença.
De acordo com a Iniciativa Internacional de Vacinas (IAVI), o investimento global em pesquisas de vacinas anti-HIV é da ordem de UU$ 960 milhões por ano. Neste contexto o Brasil deverá investir cerca de R$ 25 milhões até 2012 para a pesquisa de novas tecnologias para a produção de vacinas contra a doença.
TRANSMISSÃO - O vírus HIV pode ser transmitido de um indivíduo contaminado (soropositivo) a um indivíduo não-contaminado (soronegativo) por:
* Contato sexual (vaginal, anal, oral) desprotegido (sem camisinha);
* Transfusão de sangue contaminado;
* Uso da mesma seringa ou agulha por mais de uma pessoa;
* Cortes ou perfurações com instrumentos contaminados com o vírus;
* Da mãe para o filho durante a gravidez, parto ou na amamentação.
QUADRO CLÍNICO - A AIDS se caracteriza por grande diminuição no número de Linfócitos T Auxiliares (CD4+), cansaço e fraqueza anormais para desenvolver atividades físicas rotineiras, emagrecimento sem causa aparente, febre contínua, suores noturnos, ínguas que duram mais de três meses, tosse seca e duradoura sem que a pessoa tenha bronquite ou seja fumante, sapinho na boca e diarréia prolongada.
A presença de um ou outro sinal ou sintoma citado anteriormente NÃO significa que a pessoa esteja contaminada com o vírus HIV. Sempre que houver dúvidas, busque orientação médica. Não faça o uso de medicamento que não tenha sido prescrito pelo médico.
O principal alvo do vírus HIV é o sistema imunológico, sendo assim, a pessoa que possui o vírus torna-se incapaz de produzir anticorpos contra outros microrganismos que tentam entrar no corpo humano. Apresentando uma imunidade debilitada pelo HIV, o organismo torna-se susceptível a outras infecções. Sabe-se que a infecção oportunista mais comum em pacientes com HIV é a pneumonia provocada pelo Pneumocystis carinii, encontrada em cerca de 57% dos casos de AIDS.
Outras doenças frequentemente encontradas nos pacientes com HIV são a toxoplasmose, criptococose e infecções causadas por citomegalovírus.
Desta maneira, as causas mais comuns de morte são as infecções, contra as quais o organismo imunodeprimido não consegue reagir.
CICLO DE REPLICAÇÃO VIRAL - Quando o vírus entra no organismo humano seu principal alvo para a replicação (produção de novos vírus) serão as células do sistema imunológico (Linfócitos T CD4+, denominados neste artigo de "LT").
O HIV se liga aos receptores celulares dos LT por meio de proteínas específicas denominadas gp 120; o vírus então se funde à membrana celular e injeta o seu material genético (RNA) no citoplasma da célula a ser infectada. O HIV apresenta uma enzima chamada Transcriptase Reversa (importante alvo da ação de drogas anti-HIV) que gera uma cópia de DNA (material genético) a partir do RNA do vírus. Este DNA é então transportado ao núcleo da célula onde uma outra enzima, chamada de Integrase, irá incorporar o material genético do HIV ao material genético do LT (célula hospedeira). A partir deste momento, estes LT infectados irão produzir novos RNAs e proteínas virais que se deslocarão até a membrana celular, local onde irão se agrupar formando novos vírus, os quais ao sair da célula, cairão na corrente sanguínea e infectarão outros LT, iniciando novamente o ciclo.
O HIV ao entrar no organismo humano pode ficar incubado por muitos anos, sendo que o período entre a infecção pelo HIV e a manifestação dos primeiros sinais e sintomas da doença irá depender, em grande parte, do estado de saúde da pessoa.
A "Janela Imunológica" se refere ao intervalo de tempo entre a infecção pelo HIV e a detecção de anticorpos anti-HIV no sangue, que pode ser feita através de exames laboratoriais específicos. A fase assintomática é o período em que a pessoa está infectada, mas não apresenta nenhum sinal ou sintoma da doença.
TERAPÊUTICA ATUAL - A combinação de medicamentos ou "Coquetel de Medicamentos" foi proposta em 1996 e chega a diminuir em cerca de 100 vezes o ritmo de replicação viral em relação ao uso de uma única droga. Esta combinação faz o uso de medicamentos que são capazes de inibir diferentes etapas da replicação viral.
Os medicamentos antivirais podem ser divididos em 4 classes, com base em seu mecanismo de ação, sendo elas:
* Inibidores da Transcriptase Reversa: se incorporam à cadeia de DNA (material genético) do vírus e bloqueiam a sua formação. Por exemplo, Zidovudina, Lamivudina e Abacavir.
* Inibidores da Transcriptase Reversa Não-Análogos de Nucleosídeos: bloqueiam a ação da enzima que produz o material genético do vírus. Por exemplo, Efavirenz, Nevirapina e Delavirdina.
* Inibidores de Protease: impedem o amadurecimento do vírus em formação. Por exemplo, Sequinavir, Ritonavir e Indinavir.
* Inibidores de Fusão: impedem a ligação e entrada dos vírus HIV nos LT. Por exemplo, Enfivirtida (T-20).
PESQUISA E DESENVOLVIMENTO DE NOVOS MEDICAMENTOS - A partir do conhecimento obtido até agora sobre a biologia da replicação viral e sobre a terapêutica comumente utilizada, novas estratégias têm sido elaboradas na intenção de se obter medicamentos mais potentes e que apresentem melhores perfis farmacocinéticos, menores efeitos adversos e com amplo espectro de atividade, incluindo a ação sobre vírus HIV resistentes às terapias convencionais.
Estas estratégias baseiam-se na pesquisa de medicamentos capazes de inibir pontos da replicação viral que até então não haviam sido explorados. As novas classes de medicamentos pesquisadas são:
* Inibidores da Proteína Nucleocapsídica (NCp7): Capazes de inibir esta proteína que é essencial em diferentes etapas da replicação viral;
* Inibidores da Enzima Integrase: Capazes de inibir a integração do material genético do vírus ao material genético do LT;
* Inibidores da Enzima de Transcrição: Capazes de inibir a formação de proteínas virais que irão constituir os novos vírus.
Com o conhecimento adquirido pelas ciências médicas ao longo dos anos atualmente se torna possível transformar uma doença de quadro agudo e letal em uma doença de quadro crônico e controlável. Embora hajam algumas dificuldades, o tratamento da AIDS teve grande avanço nos últimos anos o que resultou em uma melhor qualidade de vida às pessoas soropositivas.
Entretanto a busca por medicamentos que sejam mais potentes, com menores efeitos adversos e a um baixo custo continuam sendo o alvo de grandes e intensas pesquisas, além de ser uma área bastante promissora.
FONTES:
AidsBrasil.com: www.aidsbrasil.com
Ministério da Saúde: www.aids.gov.br
Grupo pela VIDDA - AIDS.ORG.BR: www.aids.org.br
Souza MVN, Almeida MV. Drogas Anti-HIV: Passado, Presente e Perspectivas Futuras. Quim. Nova, Vol. 26, No. 3, 366-372, 2003.